Leitura: Betty Grable,The Reluctant Movie Queen (Doug Warren, 1982)

Betty Grable,The Reluctant Movie Queen
Robson Books, 1982
Uma boa biografia de Betty Grable, estrela maior dos musicais de Hollywood. Foi uma das mais famosas Fox Girls (como Alice Faye e Marilyn Monroe). Mas Betty levou dez anos a atingir o estrelato. Começou no cinema em 1930, tinha treze ou catorze anos, e em 1941 com Down The Argentine Way, tornou-se uma estrela da Fox, a única à altura da rainha Alice Faye (o filme também revelou Carmen Miranda). Foram muitos anos de formação, treino e apuramento de uma artista completa, que brilharia apenas no tecnicolor da Fox. Foi brevemente (dois anos no máximo) contratada pela Paramount, RKO e Fox e foi por fim nesta, sob a direção de Darryl Zanuck, que se tornaria numa das Fox girls. Nos anos 30 contracenou mais de uma vez com Fred Astaire e Ginger Rogers e outros astros da época, mas ficara sempre à sombra deles. Teve publicidade extra quando se casou com Jackie Coogan, um dos herdeiros mais assíduos dos tabloides, e mais publicidade teve com o processo que Jackie fez contra a família que lhe negou a herança.  Durante a segunda guerra mundial, Betty Grabble atingiu o pico de popularidade. A sua foto de pinup, requisitada por milhões de soldados, foi uma das imagens mais populares do período e Betty tornou-se a estrela número um de Hollywood, em termos salariais. Os seus filmes arrasavam na bilheteira mas nunca viram quaisquer distinções. Darryl Zanuck tentou fazê-la estrelar um drama para mudar a sua imagem de pinup, mas Betty recusou e continuou a ser a rainha das comédias musicais da Fox, onde os seus atributos físicos eram muito bem aproveitados. Nos anos 50 o seu reinado acabou e em 1955 fez o seu último filme, quando ainda era jovem. Darryl Zanuck mantinha sempre umas loiras jovens preparadas para tomar o lugar da sua mina de ouro e foi assim que Marilyn Monroe tomou o lugar de Grable. Esta lutou para ter o papel de Lorelei, em Gentlemen Prefer Blondes, mas foi Marilyn que o conseguiu. As duas protagonizaram How to Marry a Millionaire (junto com Lauren Bacall), e Betty ensinou Marilyn alguns truques para melhorar a sua prestação. Antes do filme estrear, Betty rasgou o contrato que ainda lhe assegurava cinco anos na Fox, e Zanuck elevou Marilyn a estrela principal do filme no genérico. Nos restantes quinze anos de vida, Betty fez televisão e sobretudo teatro musical, onde brilhou, por exemplo em Guys and Dolls, que lhe escapara no cinema (faltou a uma entrevista com Samuel Goldwyn por ter levado o cão ao veterinário, e o mogul eliminou-a prontamente), Hello Dolly ou Born Yesterday. Adorei ler esta biografia. Caxinas 4,5/5

Mamma Mia: Here We Go Again! (Oliver Parker, 2018)

Mamma Mia: Here We Go Again! (2018), com argumento do próprio realizador, Oliver Parker, é a sequela de Mamma Mia!(2008), enorme sucesso de bilheteira naquele ano. Este segundo filme está uns pontos abaixo do primeiro, devido sobretudo à ausência de novidade, mas também à ausência de Meryl Streep, que reinava sobre o elenco do primeiro filme. A personagem de Streep, Donna, faleceu faz um ano e a sua filha Sophie (Amanda Seyfried) decide reinaugurar a casa-hotel de Donna. Enquanto esperamos por esse dia, e perante a expectativa sobre quem aparecerá na festa (os três pais, o namorado, virão?), assistimos à história da jovem Donna (Lily James), ao seu envolvimento com três rapazes antes de se instalar na ilha grega para ter e criar a filha. Esta história, inspirada e fluente, é de Oliver Parker, Catherine Johnson e Richard Curtis, três britânicos. Johnson é a autora do livro que inspirou o musical londrino e escreveu o argumento do primeiro filme. Curtis assinou algumas das comédias românticas mais memoráveis desde os anos 90. Eles sabem o que fazem. No elenco, o destaque vai para Lily James, que dá vida à jovem Donna, e para Cher, que domina a sequência final com a sua voz grave e andrógina, que dá uma dimensão surpreendente às cancões dos Abba, normalmente associadas a timbres agudos e melodiosos. Obviamente que todo o encanto irresistível do filme assenta nas canções dos Abba, que resistem a qualquer canto amador. Foi um prazer ver este filme, mesmo na versão dobrada brasileira. Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo, agosto de 2018, em Salvador, Bahia 4/5 
Elenco: Donna (Meryl Streep), Sophie (Amanda Seyfried), jovem Donna (Lily James), Tanya (Jessica Keenan Wynn), Rosie (Alexa Davies), Harry (Hugh Skinner), Sam (Jeremy Irvine), Bill (Josh Dylan),  Dominic Cooper, Pierce Brosnan, Colin Firth.
Números musicais:
When I Kissed the Teacher (Young Donna and the Dynamos, Vice-Chancellor) 
I Wonder (Departure) (Young Donna and the Dynamos)
One of Us (Sophie, Sky)
Waterloo (Young Harry, Young Donna)
Why Did It Have to Be Me? (Young Bill, Young Donna, Young Harry)
I Have a Dream (Young Donna)
Kisses of Fire (Lazaros)
Andante, Andante (Young Donna)
The Name of the Game (Young Donna)
Knowing Me, Knowing You (Young Donna, Young Sam)
Mamma Mia (Young Donna and the Dynamos)
Angel Eyes (Rosie, Tanya, Sophie)
Dancing Queen (Sophie, Rosie, Tanya, Sam, Bill, Harry)
I've Been Waiting for You (Sophie, Rosie, Tanya)
Fernando (Ruby, Fernando)
My Love, My Life (Young Donna, Donna, Sophie) 
Super Trouper (Ruby, Donna, Rosie, Tanya, Sophie, Sky, Sam, Bill, Harry, Fernando, Young Donna, Young Rosie, Young Tanya, Young Bill, Young Sam, Young Harry) 
The Day Before You Came (Donna)

A Chorus Line (Richard Attenborough, 1985)

A Chorus Line, o filme, não ficou para a história, nem sequer para a história dos musicais no cinema. Mas a versão teatral é um dos maiores êxitos de sempre da Broadway. O filme, porém, é muito pouco lembrado e quase só encontrei referências negativas. Mas eu gostei de o ver. Até revi várias sequências mais marcantes. A Chorus Line é um musical sobre a produção e arte dos musicais, um tema tão antigo quanto a história dos musicais no palco e no cinema. Um diretor (Michael Douglas) tem de escolher friamente, entre os bailarinos que se apresentam para uma audição, aqueles que farão parte de um espetáculo futuro. A história centra-se nas motivações e angústias dos bailarinos e passa-se no palco onde decorre a audição. Deve ter sido difícil transpor esta história para o cinema, de tão estática apesar do movimento constante dos dançarinos. A realização de Richard Attenborough não esteve à altura do potencial do original, ele não é de todo Bob Fosse. Já a música é memorável, em especial o clássico "One", de Marvin Hamlisch e Edward Kleban (que assinam todas as canções). O argumento é de Arnold Schulman, que adapta o musical homónimo (1975) de James Kirkwood Jr e Nicholas Dante. Atores: Michael Douglas (Zach, o coreógrafo), Alyson Reed (Cassie), Terrence Mann (Larry, coreógrafo asssistente), Sharon Brown (Kim, secretária de Zach). Visto em DVD: 3,5/5 
Números musicais:  
"I Hope I Get It" (com todo o elenco) 
"Who Am I Anyway?" (Paul) 
"I Can Do That" (Mike) 
"At the Ballet" (Sheila, Bebe e Maggie) 
"Surprise, Surprise" (Richie e os dançarinos) 
"Nothing" (Diana)  
"Dance: Ten; Looks: Three" (Val) 
"Let Me Dance for You" (Cassie) 
"One" (ensaio com todo o elenco) 
"What I Did for Love" (Cassie) 
"One" (Finale com todo o elenco)

Pin Up Girl (Bruce Humberstone, 1944)


Vi este filme várias vezes de seguida, por vezes como filme de fundo (como a música ambiente) prestando atenção nas sequências mais engraçadas e algumas sequências musicais mais atraentes. Pin Up Girl é o típico filme feito para animar os americanos durante a guerra, os que ficavam no país, os que iam partir. Escapismo que ainda hoje comove muitos cinéfilos. A história envolve uma loira (Betty Grable) e soldados (ela fica noiva de algumas centenas) mas desenvolve-se como uma comédia romântica pois essa loira, que é secretária mas faz-se passar por cantora, tem de desfazer esse imbróglio que criou para ficar com o soldado que ama (mas que no início rejeitava). Uma história banal mas cómica, pontuada por números musicais que ninguém se atreve a fazer mais: dança sobre patins, dezenas de dançarinos em coreografias miltares (entre outras), duplas de cómicos-dançarinos, e as cantoras de charme, loiras e morenas, que se revezam e se disputam (a loira, ganha, claro). Todos se divertem e o espectador também. VC 4/5  

Pin Up Girl (1944). Comédia musical em Technicolor. Realizada por Bruce Humberstone. Produzida por William LeBaron (para a Fox). Argumento de Robert Ellis, Helen Logan e Earl Baldwin, que adaptam o conto Imagine Us! (1942) de Libbie Block. Elenco: Betty Grable, John Harvey, Martha Raye, Joe E. Brownd e Charlie Spivak and His Orchestra. Música de James V. Monaco (music) e Mack Gordon (lyrics). Coreografia Hermes Pan. Estreia em Portugal: Quinhentos Noivos para uma Noiva a 5/2/1945.

As canções de Pin Up Girl:
You're My Little Pin Up Girl (James V. Monaco & Mack Gordon) 
Intérpretes: Coro, músicos não creditados e Betty Grable dançado pelos Condos Brothers
  
Time Alone Will Tell Music  (James V. Monaco & Mack Gordon)
Intérpretes: June Hutton e The Stardusters com Charlie Spivak and His Orchestra

Red Robins, Bobwhites and Bluebirds Music  (James V. Monaco & Mack Gordon) Intérpretes:  Martha Raye, dançado por Gloria Nord e os Skating Vanities
   
Don't Carry Tales out of School Music  (James V. Monaco & Mack Gordon) 
Intérpretes: Betty Grable e coro com Charlie Spivak and His Orchestra
  
Yankee Doodle Hayride Music (James V. Monaco & Mack Gordon) 
Intérpretes: Martha Raye com Charlie Spivak and His Orchestra 
Dançado pelos Condos Brothers

Once Too Often (James V. Monaco & Mack Gordon) 
Intérpretes:  Betty Grable, Hermes Pan e Angela Blue com Charlie Spivak and His Orchestra 

The Story of the Very Merry Widow (James V. Monaco & Mack Gordon) 
Intérpretes: Betty Grable com coro

Lucky Me (Jack Donohue, 1954)

Lucky Me é uma comédia musical com Doris Day, uma daquelas comédias ligeiras, deliciosamente patetas (e wasp) que se faziam à volta da atriz. As coreografias são mínimas e o canto de Day é pouco expressivo, mas tudo isso está em sintonia com a pouca ambição do argumento. Day e alguns amigos do teatro de vaudeville (destaque para o cómico Phil Silvers) tentam montar um show mais ambicioso, ao mesmo tempo que ela conhece um estranho (Robert Cummings) por quem se apaixona, que vem a ser um famoso songwriter. Lucky Me foi o primeiro musical feito em CinemaScope. VC 2,5/5

Rock-Doodle (Don Bluth, 1991)

Flyer da reposição nas salas (2018) 
Rock-a-Doodle é uma pequena pérola do cinema de animação dos anos 90. Vale bem a pena revê-lo ou descobri-lo agora. É um filme que propõe a interação entre imagens e personagens reais e outras em desenho animado. Mas esse não é um dos seus trunfos. O filme inspira-se numa personagem criada por Edmond Rostand no século 18: o galo Chantecler. Na sua aldeia, ele tem a função e a fama de anunciar o nascimento do dia, mas uma manhã ele falha na sua missão e então parte, humilhado, para a grande cidade, onde se torna numa grande estrela de rock'n'roll. No campo, forças do mal e da escuridão destroem a natureza e ameaçam a vida das pessoas e dos animais. Alguns destes partem em busca de Chantecler para que este lhes livre dos demónios da noite. O filme dura pouco mais de setenta minutos, por isso não há momentos mortos e aborrecidos e há lugar para algumas canções. A versão francesa a que assisti é  esmerada, com versões das canções feitas por Boris Bergman (a partir das canções originais de  T.J. Kuenster) e cantadas por Eddy Mitchel e Lio, entre outros. Eis as canções com os respetivos intérpretes franceses. Rock O' Rico (Eddy Mitchell), Sacré soleil (Eddy Mitchell) Ergomane (Eddy Mitchell), Nage ou coule (Lio & Paul Ives), Plus rien sans elle (Eddy Mitchell & Lio), Chien perdu sans lacets (Philippe Dumas), A bas le soleil (Tom Novembre & Le chœur des Chouettes), La Complainte du Grand Duc (Tom Novembre), Tweedle Lee-Dee (Tom Novembre & Le chœur des Chouettes), Un chouette pique-nique (Tom Novembre & Le chœur des Chouettes) e Le Chant du videur (Le chœur des Videurs). Paris 3,5/5

Une femme est une femme (Jean-Luc Godard, 1961)

Um dos meus filmes preferidos de Godard. Anna Karina indecisa entre o namorado, Jean-Claude Brialy, e Jean-Paul Belmondo, o amigo do casal. Qual dos dois vai ser o pai do seu filho? Temos assim uma comédia romântica e musical como não se vira até então. Música do grande Michel Legrand. E Charles Aznavour tem direito a uma passagem integral da sua canção Tu t'laisses aller, um verdadeiro clip musical. O filme é marcado por uma vertigem formal típica dos primeiros filmes de Godard, em que reflexão estética e ludismo não se largam e não nos dão descanso. Tudo em cinemascope. Era o auge da nouvelle vague. Paris 4/5  
Une femme est une femme (1961)  
Realização: Jean-Luc Godard    
Argumento: Jean-Luc Godard  
(ideia de Geneviève Cluny)  
Produção: Georges de Beauregard, Carlo Ponti  (Rome Paris Films, Euro International Film, EIA)  
Música: Michel Legrand   
Canção: "Tu t'laisses aller", de e por Charles Aznavour   
Fotografia: Raoul Coutard  
Atores: Anna Karina, Jean-Claude Brialy, Jean-Paul Belmondo, Marie Dubois, Jeanne Moreau, Dominique Zardi, Henri Attal, Nicole Paquin, Suzanne Ernest Menzer, Catherine Demongeot, Marion Sarraut, Gisèle Sandré, Dorothée Blank, Gérard Hoffmann, Karyn Balm