All That Jazz (Bob Fosse, 1979)

Há meses vi All That Jazz em dvd, agora não perdi a oportunidade de voltar a vê-lo numa sala com um grande ecrã (da cinemateca francesa). Parece que vi outro filme. Ainda melhor. Não creio que depois de All That Jazz tenha surgido um musical mais arrojado e importante. Tal como Woody Allen e Ingmar Bergman, no auge nos mesmos anos 70, Bob Fosse põe a morte no centro da sua obra, mas a partir da arte que ele domina melhor, o showbizz. Arte do entretenimento, arte feita para agradar ao público. A morte toma as formas atraentes de Jessica Lange, que provoca o coreógrafo interpretado por Roy Scheider, que não se deixa intimidar antes a tenta seduzir. Que ideia magnífica de falar do diálogo entre nós e a morte... O filme é extremamente original, mas irregular, e Fosse não recua perante nenhuma fonte que o possa inspirar: alta cultura (Vivaldi), publicidade, televisão, stand-up comedy, musical da Broadway... Os musicais dos anos 60 e 70 parecem ser sempre uma imitação dos musicais da idade de ouro de Hollywood, apenas Bob Fosse consegue evitar essa esterilidade e fazer algo novo, que só poderia ter sido feito no presente (do filme). E o melhor do filme talvez sejam mesmo os números musicais, alguns deles extraordinários. Paris 5/5

Comentário: Le Chanteur de Mexico (Richard Pottier, 1956)

Le Chanteur de Mexico é, na origem, uma opereta famosíssima de Francis Lopez, com Luis Mariano, adaptada para o cinema em 1956. Temos neste filme os ingredientes da comédia musical de Hollywood, mas nada está ao nível do modelo americano. Luis Mariano é um ator sofrível e o seu canto não resistiu muito à passagem do tempo e das modas. Como lhe falta a graça ou o humor das estrelas americanas... Bourvil concentra em si a comicidade da história, mas não é memorável, pelo menos para mim. Annie Cordy é a escolha mais acertada e no futuro iria trabalhar com sucesso na Broadway. Na realização e nos valores de produção é que o filme francês perde em toda a linha para o cinema musical americano. Vila do Conde DVD 3/5

Comentário: Sérénade au Texas (Richard Pottier, 1958)

As estrelas masculinas do Chanteur de Mexico (1956), Luis Mariano e Bourvil, encontram-se de novo para novas aventuras musicais e românticas, desta vez no cenário do oeste. As situações cómicas repetem-se e os números musicais não escassam, os dois amigos, meio perdidos nas planícies americanas, juntam-se a uma companhia ambulante de comediantes. A música de Francis Lopez tem ainda hoje um certo charme. Vila do Conde DVD 3/5

Comentário: Carousel (Henry King, 1956)

Caso para dizer, Carousel, o musical de Rodgers and Hammerstein (1945), é muito superior à sua adaptação cinematográfica pela Fox, com realização de Henry King. Isso acontece muitas vezes com os musicais. Em Carousel, estão duas das minhas canções americanas preferidas: Soliloquy e You'll Never Walk Alone. Competentes, os protagonistas Gordon MacRae e Shirley Jones não ficam na memória e resta-nos sonhar com a participação de Frank Sinatra, que estava prevista para ser o protagonista mas que ele à última hora recusou. Vila do Conde DVD 3/5

Comentário: Funny Girl (William Wyler, 1968)

Este filme é famoso porque é o filme de estreia de Barbra Streisand, que com ele se tornou numa estrela global de primeira grandeza e viria a ganhar o Oscar e o Golden Globe de melhor atriz. Mas, para além das músicas maravilhosas de Jule Styne e Bob Merrill e da estreante Streisand, pouco se aproveita hoje de verdadeiramente relevante neste musical pesado, convencional, que não marcou a sua época, aliás pouco rica em musicais memoráveis. O filme é um biopic de Fanny Brice, estrela dos musicais da Broadway do início do século. Mas o argumento prefere concentrar-se na vida privada de Brice (a sua paixão pelo marido) do que na sua carreira. No entanto, as melhores cenas para mim são as que se passam no meio teatral, no palco ou nos bastidores. Como não sou fã de Streisand, a atriz, não tenho grande apreço por este filme, a não ser pelos momentos musicais. Paris cinema Christine 4/5

Comentário: Paramount on Parade (1930)

Paramount on Parade é um filme (musical revue) que reúne várias estrelas dos estúdios Paramount, que participam interpretando, cantando e dançando em sketches cómicos, cheios de referências ao próprio cinema, que na altura criava um olimpo e um mundo alternativo que seduzia o espectador. Como tal, é um filme desigual, com coisas ultrapassadas, cheias de pó, e outras ainda cheias de vida e com a verve original quase intacta. Surpreendeu-me o enorme espaço que tem a cultura francesa neste filme. Maurice Chevalier aparece ao longo de todo o filme, falando para o espectador (uma marca dele) ou interpretando vários números como o da dança dos Apaches que tem origem em Paris... (na foto). Várias sequências estão perdidas, juntamente com a respetiva banda sonora, mesmo assim são apresentadas imagens que sobreviveram. Trata-se de uma cópia restaurada e remontada, obviamente. A sua importância histórica, mais do que estética, é evidente. Para além de Chevalier, gostei de ver Clara Bow cantando (era uma estrela do mudo) "I'm True To The Navy Now" (que mais tarde Carmen Miranda cantaria) e Nino Martini "Torna a Surriento". Paris Cinémathèque 3/5

Comentário: The Country Girl (George Seaton, 1954)

Um trio de ouro (Bing Crosby, Grace Kelly e William Holden) num filme com uma história (de Clifford Odets) inesperada: um ator famoso (Bing Crosby) atravessa uma crise pessoal e profissional aguda, devido à sua insegurança, alcoolismo e depressão. Grace Kelly faz de sua mulher e tem um papel sombrio que lhe valeu o Oscar. E muito estranho ver dois ícones da comédia romântica e musical, como Kelly e Crosby, interpretarem um casal mergulhado na depressão e na miséria. Ainda assim, o filme pode ser considerado um (drama) musical, pois Crosby canta quatro canções assinadas por Harold Arlen e Ira Gershwin. O filme foi nomeado para sete óscares: ganhou dois e perdeu os outros cinco para On the Waterfront (Elia Kazan). Foi uma derrota justa, pois o filme de Kazan é muito melhor do que o de Seaton. DVD 3/5